Tobia Lê o conto que o Tobia adora

Um conto popular do Egito

Rodópis e a Sandália Dourada

A sandália de uma escrava é levada por um falcão até cair no colo de um rei em Mênfis, naquela que pode ser a mais antiga história de Cinderela alguma vez contada.

A parent and child reading together
Uma nota sobre esta história. Esta recontagem segue uma das mais antigas histórias do tipo Cinderela conhecidas no mundo, escrita pela primeira vez pelo geógrafo grego Estrabão há cerca de dois mil anos, passada em Náucratis, no Egito, durante o reinado do faraó Amásis. Muito antes dos sapatos de cristal e das fadas madrinhas, existiu Rodópis e a sua sandália de couro dourado.

Na cidade egípcia junto ao rio de Náucratis, vivia uma rapariga chamada Rodópis, cujo nome significava “faces rosadas”. Fora trazida de muito longe, para lá do mar, e trabalhava agora em casa de um senhor bondoso, cuidando de gansos e lavando lã à beira-rio, enquanto as outras criadas troçavam do seu cabelo claro e do seu sotaque estranho.

Uma noite, depois de Rodópis terminar as suas tarefas, o seu senhor, que se afeiçoara ao seu temperamento gentil, ofereceu-lhe um par de sandálias com solas de couro dourado, tão delicadas que pareciam feitas para dançar em vez de andar. Nessa noite, enquanto as outras raparigas iam a uma festa na vila, Rodópis ficou para trás a lavar roupa no rio, pousando as suas belas sandálias numa pedra plana para secarem ao sol.

Uma sandália levada pelo vento

Enquanto trabalhava, um falcão desceu do céu, agarrou uma das pequenas sandálias douradas da pedra, e voltou a subir para as nuvens antes de Rodópis sequer conseguir gritar. Ela nunca imaginou voltar a vê-la, e, limpando uma lágrima, terminou em silêncio o seu trabalho e voltou para casa com a única sandália que lhe restava.

Uma sandália no colo de um faraó

Longe dali, na grande cidade de Mênfis, o jovem faraó Amásis dava audiência ao ar livre. Sem aviso, o falcão voou em círculo sobre a sua cabeça e deixou cair a pequenina sandália, com tal precisão que caiu mesmo no seu colo. Amásis virou-a nas mãos, maravilhado com o seu pequeno tamanho e o fino couro dourado, e declarou que não descansaria até encontrar o pé a que pertencia.

Foram enviados barcos rio acima e rio abaixo, e mensageiros percorreram vila após vila, até que finalmente um chegou à casa em Náucratis onde vivia Rodópis. Quando ela avançou, em silêncio, com a sua única sandália, e a dourada foi colocada junto ao seu pé descalço, todos viram que encaixava na perfeição.

Uma rainha vinda da beira do rio

Amásis levou ele próprio Rodópis para Mênfis, e ali, no palácio onde o falcão tinha deixado cair a sandália pela primeira vez, fez dela a sua rainha. Ela nunca esqueceu os gansos de que cuidara nem o rio onde lavara lã, e diz-se que, pelo resto da sua vida, manteve um pequeno prato de grão no parapeito da janela, para o caso de um falcão voltar a visitá-la.

E essa, dizem alguns, é a versão mais antiga de uma história que desde então tem sido recontada em cem terras diferentes: que a bondade, por mais discretamente que seja dada, encontra sempre o caminho de volta a casa.

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Nubian Lullaby (Egypt)

Toca-a baixinho enquanto lês: uma canção de embalar núbia tradicional tocada à mão, vinda do Egito, a mesma cultura de onde vem este conto.

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